Saúde
Câncer mata mais de 26 mil pessoas por dia no mundo e OMS alerta para desigualdade no acesso ao tratamento
O JACARé/BY SANDRA LUZ, DE PORTUGAL

O câncer continua sendo a segunda principal causa de morte no mundo, depois das doenças cardiovasculares, com cerca de 20,6 milhões de novos casos e quase 10 milhões de mortes anualmente, o que equivale a mais de 26 mil óbitos por dia. Os dados integram o Relatório Global sobre o Estado do Câncer da OMS 2026, divulgado no último dia 8 de julho, desenvolvido em parceria com a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC). Sem ações urgentes, a projeção é que os casos anuais cheguem a quase 35 milhões até 2050.
No Brasil, a incidência anual de câncer é de 704,1 mil casos, de acordo com a estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para 2023. A mortalidade anual chega a 225,8 mil óbitos, segundo o Atlas da Mortalidade do INCA de 2020. A prevalência, ou seja, o número de pessoas vivas que tiveram diagnóstico de câncer nos últimos cinco anos, é de 414,2 mil casos por ano, conforme estimativa do Globocan de 2020.
O câncer de pulmão, quarto tipo que mais mata no País, apresenta dados preocupantes. Dados do Radar do Câncer mostram que 88% dos pacientes com a doença iniciam o tratamento em estágio avançado — quando a doença já está nos estágios 3 ou 4 —, o que reduz significativamente as chances de cura. Além disso, 44,7% dos pacientes são fumantes, e estima-se que 80% a 90% da incidência de câncer de pulmão seja atribuída ao fumo. O tabagismo aumenta em 20 a 30 vezes o risco de desenvolver a doença em comparação com não fumantes. A estimativa de gastos anuais para o Sistema Único de Saúde (SUS) com o câncer de pulmão é de R$ 62,14 milhões. Outro dado alarmante é que 55,9% dos pacientes precisam se deslocar para fora de seu município de residência para realizar o tratamento.
O relatório da OMS revela desigualdades persistentes e crescentes no acesso à prevenção, diagnóstico, tratamento e cuidados paliativos. Enquanto 87% das mulheres com câncer de mama sobrevivem cinco anos após o diagnóstico em países de alta renda, apenas cerca de 42% o fazem em países de baixa renda. Menos de um terço dos países inclui atualmente o tratamento do câncer em seus planos universais de saúde.
“O câncer é uma doença profundamente pessoal que afeta quase todos nós. Mas a sobrevivência de uma pessoa ao câncer nunca deveria depender de onde ela nasceu ou de sua renda”, afirmou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. “As desigualdades documentadas neste relatório não são inevitáveis; são consequência de escolhas e podem ser revertidas por meio de ações mais fortes e unificadas”.
Pesquisa inédita da OMS com pessoas afetadas pelo câncer revelou que pelo menos 45% delas enfrentam dificuldades financeiras, mais da metade relata problemas de saúde mental, e quase todos os cuidadores relatam sobrecarga, incluindo serviços não remunerados e isolamento social.
Em 2024, a Ásia representou a maior parcela, com mais da metade de todos os casos de câncer (50,7%) e óbitos (56,5%), refletindo sua grande população. A Europa contribuiu com 21% dos casos globais e 20% dos óbitos, apesar de ter apenas cerca de 9% da população mundial.
O câncer de pulmão continua sendo a principal causa de morte por câncer em todo o mundo. Os cânceres de pulmão, próstata e colorretal estão entre os mais comuns em homens, enquanto os cânceres de mama, pulmão e colorretal representam uma parcela substancial da incidência em mulheres.
Quase quatro em cada dez casos de câncer em todo o mundo estão ligados a fatores de risco evitáveis, particularmente infecções como HPV, hepatite B e C, consumo de álcool e tabaco, alto índice de massa corporal e atividade física insuficiente. O consumo de tabaco, principal fator de risco para o câncer de pulmão, diminuiu 27% desde 2010, contribuindo para a redução dos casos em algumas regiões.
A disponibilidade dos 20 medicamentos prioritários para o câncer varia de apenas 9% a 54% em países de baixa e média-baixa renda, em comparação com 68% a 94% em países de alta renda. O relatório também destaca que, embora 82% dos países tenham planos nacionais de controle do câncer, um aumento em relação aos 50% registrados em 2010, os avanços não estão se traduzindo em ações na velocidade necessária.
A diretora da IARC, Elisabete Weiderpass, afirmou: “O perfil do câncer está evoluindo, cada vez mais impulsionado pelo aumento das taxas de obesidade, inatividade física, dietas pouco saudáveis e poluição do ar. A prevenção do câncer deve continuar sendo uma prioridade política”.
O relatório convoca governos, organizações internacionais, sociedade civil e o setor privado a trabalharem juntos para oferecer uma abordagem holística e centrada na pessoa. Para apoiar essa visão, o documento descreve sete recomendações principais e três mudanças estratégicas: melhoria das capacidades (integrar o controle do câncer na cobertura universal de saúde), melhoria da proteção (colocar as pessoas com experiência vivida no centro dos sistemas) e melhor custo-benefício (alinhar a pesquisa e a inovação às necessidades de saúde pública).






