Em poucas horas, Corinthians perde patrocínio da Vai de Bet e vê Carlos Miguel pedir para sair

Vai de Bet usou cláusula de contrato para romper acordo, em meio a denúncias de uso de ‘laranja’ na destinação de valores. Substituto de Cássio, por sua vez, tem propostas da Inglaterra

MIDIAMAX/HUMBERTO MARQUES


Augusto Melo, presidente do Corinthians, usa boné com marca da Vai de Bet, que cancelou acordo com o clube (Rodrigo Coca, Ag. Corinthians, Arquivo)

Em um intervalo de poucas horas, a torcida do Corinthians recebeu duas notícias preocupantes, dentro e fora das quatro linhas. No campo, teve a confirmação de que irá se despedir do goleiro Carlos Miguel, que recebeu propostas do futebol inglês e, com isso, deve ficar somente mais algumas semanas no clube. Contudo, o maior problema é extracampo: a patrocinadora master, a casa de apostas Vai de Bet, anunciou o rompimento unilateral do contrato.

A saída da Vai de Bet era assunto há algumas semanas, desde que veio a público a suspeita de que o contrato teria suspeitas de irregularidades na destinação do dinheiro. O caso veio à tona pelo blog do Juca Kfouri, no UOL, e confirmado por outras agências de notícias.

A decisão, segundo a Agência Estado, acontece após os polêmicos pagamentos da Rede Media Social Ltda., intermediária do acordo, à Neoway Soluções Integradas em Serviços Ltda., suposta empresa “laranja' cujo CNPJ está no nome de Alex Fernando André, o Alex Cassundé, membro da equipe de comunicação do presidente do Corinthians, Augusto Melo.

Nesta semana, a Polícia Civil notificou o clube e pediu informações sobre a intermediação do contrato de patrocínio. Em comunicado, a Vai de Bet afirmou ter tomado a decisão com base em dispositivos contratuais.

“A marca avalia que não se pode manter a parceria enquanto pairar sobre o acordo qualquer suspeita em relação a condutas que fujam à conformidade com a ética e os preceitos legais. Só a dúvida, no crivo ético da marca, já é suficiente para determinar a rescisão – que foi exercida pela Vai de Bet suscitando cláusulas do contrato que protegem direitos da marca nessa decisão', diz trecho da nota divulgada à imprensa.

“Desde o início de abril a marca acompanha e solicita esclarecimentos sobre as suspeitas levantadas, tendo já realizado reuniões, comunicações formais e notificação extrajudicial. Diante das explicações apresentadas sem nenhuma resolutividade, a Vai de Bet lamentavelmente se vê obrigada a tomar tal atitude', afirma a empresa.

Acordo com a Vai de Bet era o maior do futebol do país

Ao assinar com a Vai de Bet, o Corinthians fechou o maior acordo de patrocínio do futebol brasileiro. A marca do ramo de apostas ofereceu R$ 360 milhões para estampar o espaço mais nobre da camisa corintiana por três temporadas.

O acordo previa o pagamento de R$ 10 milhões ao longo dos 36 meses de contrato. Então, ao todo, o clube recebeu R$ 60 milhões pela parceria. A empresa substituiu a PixBet, até então patrocinadora principal, e que teve direito a receber pagamento milionário pela rescisão.

O contrato com a Vai de Bet previa também o pagamento de 7% do montante líquido de cada parcela à Rede Media Social Ltda. Ou seja, R$ 700 mil por mês ao longo de três anos, resultando em R$ 25,2 milhões ao fim do contrato.

Com CNPJ ativo desde janeiro de 2021, a empresa possui um capital social declarado de R$ 10 mil. Edna Oliveira dos Santos, residente na cidade de Peruíbe, litoral Sul de São Paulo, teve o nome envolvido no episódio. Há a suspeita de que ela figurou como “laranja' no caso sem a sua anuência.

Segundo reportagem publicada na coluna do jornalista Juca Kfouri, após os pagamentos da comissão, a Rede Social Media Ltda repassou parte dos valores por PIX à Neoway, empresa com endereço na Avenida Paulista que serviria como “laranja'. O clube notificou a intermediadora extrajudicialmente cobrando explicações sobre o caso e solicitou a EY investigação do contrato para esclarecimentos.

Em nota, o Corinthians confirmou o distrato e afirmou que a Vai de Bet saiu de ser “uma casa de apostas desconhecida' para se converter na segunda maior do país, graças à visibilidade no clube.

Cassundé trabalho na campanha do presidente do Corinthians

Cassundé trabalhou na campanha de Augusto Melo a convite de Sergio Moura, superintendente de marketing do Corinthians. Moura pediu afastamento do cargo após a polêmica vir à tona. Ele também estava sofrendo pressão no cargo por não conseguir fechar outros patrocínios para a camisa do clube.

O caso está nas mãos do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania. Ao Estadão, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo limitou-se a afirmar que “diligências estão em andamento visando o esclarecimento dos fatos'. O Corinthians confirmou ter recebido a notificação e disse que vai colaborar com as investigações, pois afirma ser “o maior interessado em esclarecer os fatos'.

O contrato também está sendo analisado pela Comissão de Ética e Justiça do Conselho Deliberativo do Corinthians. Assim, o parecer deve sair nos próximos dias e estará na pauta de reunião extraordinária para pedir esclarecimentos a respeito do episódio, que motivou a saída de Yun Ki Lee do cargo de diretor jurídico, e de Fernando Perino do cargo de diretor jurídico adjunto. Ligado a Lee, Marcelo Mandel, diretor de relações internacionais, decidiu se afastar do cargo na quarta-feira (5).

Além deles, também devem deixar o clube o diretor financeiro, Rozallah Santoro, e o diretor-adjunto de futebol, Fernando Alba. Ambos deveriam entregar os cargos ainda hoje. A situação de Alba é mais emblemática, já que ele assumiu a vaga de Rubens Gomes, o Rubão, que rompeu com o presidente Augusto Melo.

Carlos Miguel avisa que vai deixar o time em julho

Não bastasse o problema com a Vai de Bet, o Corinthians viu nesta sexta-feira (7) o goleiro Carlos Miguel confirmar seu desejo de deixar o clube. Isso porque o arqueiro, substituto imediato de Cássio –que deixou o clube em maio, após meses de desgaste com a torcida–, tem acordo com o Nottingham Forest e interessa ao West Ham.

A saída se viu facilitada com a redução da multa contratual de Carlos Miguel, que caiu para € 4 milhões (cerca de R$ 23 milhões em valores atuais) neste ano. Assim, os clubes ingleses aceitam pagar o valor para contar com o goleiro a partir de julho, com a janela de transferências para aquele país.

Conforme o Globo Esporte, Carlos Miguel estaria insatisfeito com a atual gestão do clube e com a recente saída de medalhões, como o próprio Cássio. Ídolo do timão, o agora ex-corintiano reforçou o Cruzeiro, o que abriu caminho para que o atual titular e capitão assumisse as metas alvinegras.

Carlos Miguel teria informado que tem interesse em jogar até julho. O Corinthians, porém, segue em busca de outros goleiros. Walter, hoje no Cuiabá e que por anos foi reserva de Cássio, seria uma das possibilidades. Dessa forma, Matheus Donelli, terceiro goleiro do time, herdaria a vaga.

O Corinthians vive uma temporada inconstante. Eliminado no Paulistão ainda na fase de grupos, atualmente ocupa a 17.ª posição do Campeonato Brasileiro, abrindo a zona de rebaixamento. Por outro lado, está garantido nas oitavas de final da Copa Sul-Americana e da Copa do Brasil.