Saúde
Uso compulsivo de telas na infância dobra risco de comportamentos suicidas
O JACARé/BY SANDRA LUZ, DE PORTUGAL

Um estudo longitudinal das universidades Weill Cornell Medicine e Columbia revela dados alarmantes sobre o uso compulsivo de telas entre crianças e adolescentes: aproximadamente um terço dos jovens desenvolve uma relação problemática com redes sociais e celulares entre os 10 e 15 anos, elevando em até 2,4 vezes o risco de comportamentos suicidas. A pesquisa, publicada em novembro de 2025, acompanhou 4.285 crianças americanas por quatro anos no Estudo de Desenvolvimento Cognitivo do Cérebro Adolescente (ABCD).
Os resultados demonstram que a qualidade do engajamento – e não apenas a quantidade de horas – é crucial para determinar os impactos na saúde mental. Jovens com uso compulsivo de redes sociais e celulares apresentaram risco 2,1 vezes maior de comportamentos suicidas, enquanto o uso compulsivo elevado de redes sociais aumentou em 2,4 vezes esse risco e em 1,4 vezes a ideação suicida. O uso compulsivo de videogames mostrou a maior associação com sintomas de ansiedade e depressão.
Brasil reage com política pública para prevenir o uso de telas na infância
Em resposta a preocupações globais sobre o tema, o Brasil criou, no ano passado, um Grupo de Trabalho (GT) dedicado a elaborar um guia nacional para o uso consciente de telas por crianças e adolescentes. De acordo com Mariana Filizola, coordenadora-geral de Educação Midiática na Secretaria de Comunicação Social da Presidência, o grupo deve iniciar seus trabalhos em breve. “Nosso objetivo é ouvir especialistas de diversas áreas para que, juntos, consigamos construir um guia sobre uso de telas”, afirmou.
O GT, criado em 5 de dezembro do ano passado, reunirá especialistas de diversas áreas para criar uma publicação que oriente pais e educadores, com previsão de entrega para a população ainda este ano. A iniciativa surge em um contexto preocupante: o Brasil é um dos países onde as pessoas mais usam smartphones, com média de nove horas diárias de uso da internet, segundo levantamento da EletronicsHub.
Sinais de alerta e desigualdades sobre o uso de telas na infância
Os pesquisadores identificaram sintomas específicos do uso compulsivo:
- Ansiedade ou angústia quando sem acesso à internet
- Consultar redes sociais logo ao acordar ou antes de dormir
- Usar telas para escapar de emoções negativas
- Perda de controle sobre o tempo gasto online
- Interferência no sono, convívio familiar e desempenho acadêmico
O estudo também revelou disparidades: meninas tendem mais ao uso compulsivo de redes sociais, enquanto meninos predominam no uso compulsivo de videogames. Jovens de famílias com renda inferior a US$ 75.000 anuais, pais solteiros e menor escolaridade parental apresentaram maior risco.
Realidade brasileira e recomendações
A última pesquisa TIC Kids Online mostrou que 95% das crianças e adolescentes brasileiros entre 9 e 17 anos acessam a internet – mais de 25 milhões de pessoas. Em 24% dos casos, o primeiro acesso ocorreu antes dos 6 anos.
A médica pediatra Evelyn Eisenstein, coordenadora da Rede ESSE Mundo Digital, reforça as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria: nenhuma criança abaixo de 2 anos deveria ter contato com telas; entre 2 e 5 anos, máximo de uma hora diária; entre 6 e 10 anos, até duas horas. “Todos os estudos científicos afirmam que uso acima de quatro ou cinco horas diárias é considerado excessivo”, alerta.
Enquanto o GT nacional define suas diretrizes, a médica prescreve sua “vitamina digital”: “A de amor, atenção e afeto; B de brincar; C de conversar e cuidar; D de desconectar e E de exercícios ao ar livre”. A iniciativa brasileira representa um passo crucial para enfrentar um desafio que já preocupa especialistas em todo o mundo.






