MS conta com 150 mil hectares de reservas do patrimônio natural

O JACARé/BY SANDRA LUZ, DE PORTUGAL


Em um gesto voluntário que transforma propriedades rurais em santuários perpétuos, Mato Grosso do Sul soma 153.577 hectares dedicados à conservação privada por meio das Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs). Espalhadas por 63 unidades em 27 municípios, essas áreas são consideradas pilares estratégicos para proteger a fauna e a flora brasileiras.

Diferente de outras categorias de unidades de conservação, a RPPN nasce da vontade do proprietário, sem desapropriação, mas com compromisso eterno com a natureza. O título transforma partes de fazendas em “tesouros” voltados para a biodiversidade, fomentando pesquisa científica, ecoturismo, educação ambiental e inovação em Pagamentos por Serviços Ambientais (PSAs).

O município campeão em área protegida por RPPNs é Corumbá, a Capital do Pantanal, distante 426 km de Campo Grande, com 28.442 hectares distribuídos em 14 reservas. Em segundo lugar está Aquidauana, com 14.387 hectares, seguida por Eldorado, com 7.580 hectares.

Em Corumbá, parte significativa dessa conservação é gerenciada pelo Instituto Homem Pantaneiro (IHP), que administra quatro RPPNs: Acurizal/Penha, Rumo ao Oeste, Engenheiro Eliezer Batista e a Dorochê (esta localizada no Mato Grosso). Juntas, elas formam um corredor de biodiversidade que se conecta ao Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense, na região da Serra do Amolar – um trabalho coordenado pela Rede Amolar.

“Somos movidos por uma paixão pela conservação e temos a missão de sermos produtores de natureza”, afirma por meio de assessoria de imprensa, Angelo Rabelo, presidente do IHP. “Mas manter uma RPPN exige investimento constante. Equilibrar custos operacionais de monitoramento e proteção com as receitas geradas é um dos nossos maiores desafios”, detalha.

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão responsável por reconhecer as RPPNs, reforça seu papel estratégico. “Elas nascem de um gesto voluntário e de muita responsabilidade: proteger, em caráter permanente, um patrimônio natural que é de interesse público”, defende o presidente do ICMBio, Mauro Pires.

Pires destaca que os benefícios vão além do ambiental. “As RPPNs impulsionam a pesquisa, a educação e o turismo sustentável, gerando oportunidades locais. Valorizá-las é mais que uma obrigação; é uma honra ver essa aliança madura entre a iniciativa privada e o compromisso coletivo com o futuro”, celebra, referindo-se às mais de 811 RPPNs existentes no país.

Nas RPPNs da Serra do Amolar, a ciência é ferramenta fundamental. Ao longo de uma década, o IHP fomentou pesquisas de impacto, como os estudos sobre os efeitos dos incêndios florestais na fauna e o comportamento das onças-pintadas. O monitoramento mensal com armadilhas fotográficas já gerou milhares de imagens da vida selvagem.

As reservas servem de refúgio para pelo menos nove espécies vulneráveis ou em perigo de extinção, como a ariranha, o tatu-canastra e a anta, além de abrigarem mais de 200 espécies identificadas.

A inovação também marca presença com o desenvolvimento do Sistema Pantera, que usa inteligência artificial para monitorar e prevenir riscos de incêndio, complementando o trabalho de uma brigada ambiental permanente.

A reputação científica do local atrai pesquisadores de renome mundial, como o biólogo inglês Michael Begon. E, para 2026, um estudo inédito está previsto: um censo populacional de onças-pintadas no território, cujos resultados visam também mitigar os conflitos entre humanos e o grande felino.

As RPPNs de Mato Grosso do Sul evidenciam, assim, que a conservação da natureza é uma missão que pode ser abraçada com sucesso e inovação pela iniciativa privada, criando legados perpétuos para a biodiversidade.