“Foi por pouco tempo', diz preso após abusar de corpo de vítima de feminicídio

Depoimento aponta ação com dois comparsas e saída do local após início dos atos no cemitério

IVI NOTíCIAS/CAMPO GRANDE NEWS


Viatura da Polícia Civil em atendimento da ocorrênciaq (Foto: Ta Na Mídia Naviraí)

A confissão de um dos presos no crime de necrofilia contra Vera Lúcia da Silva, de 41 anos, vítima de feminicídio, em Eldorado, revela como o ato ocorreu. Os fatos foram cometidos poucos dias após o sepultamento da vítima, no cemitério municipal da cidade.

Em depoimento, o homem afirmou que foi ao cemitério para acompanhar um colega, de 16 anos, que pretendia visitar o túmulo da mãe. Ao chegarem, encontraram um terceiro suspeito próximo à sepultura da vítima. Segundo ele, após o amigo violar o túmulo com um chute, os três retiraram o corpo. O próprio suspeito disse que foi o primeiro a praticar o ato de necrofilia.

“Disse que por pouco tempo porque cheirava mal', relatou o delegado Robilson Júnior Albertoni, responsável pelas investigações.

Na sequência, o homem declarou que deixou o local enquanto os outros dois permaneceram. “Mas alegou que não sabe o que fizeram depois', concluiu a autoridade policial.

O suspeito que confessou trabalhava em um mercado da cidade e utilizava tornozeleira eletrônica por tráfico de drogas. Os outros dois envolvidos não possuíam ocupação profissional.

Os três foram presos em flagrante nesta quinta-feira (16), após a violação do túmulo de Vera Lúcia da Silva, assassinada a tiros dentro de casa no último domingo. O ex-companheiro, autor do feminicídio, tirou a própria vida em seguida, no quintal da residência.

Assim que a violação foi constatada, a Polícia Civil iniciou diligências e identificou os envolvidos em curto intervalo de tempo.

“Após o sepultamento da vítima, no amanhecer da quarta-feira, os funcionários do cemitério municipal, ao chegarem lá, perceberam que o túmulo estava violado e ela havia sido retirada para fora. Além da violação do túmulo, as suas vestes da parte de baixo também haviam sido retiradas, aparentando que havia ocorrido ali uma violação sexual contra ela', explicou Robilson.

O caso é tratado como vilipêndio de cadáver, crime previsto no Código Penal, e repercute pela brutalidade e pela sequência de violência contra a vítima, assassinada e, dias depois, alvo de violação após a morte.

Dor revivida - Filha de Vera, Letícia Gabrielly afirmou ao Campo Grande News que a nova violência fez a família reviver o luto. “Foi como enterrar minha mãe pela segunda vez'.

Ainda sem conseguir processar a perda, ela descreve a situação como um limite que não deveria ser ultrapassado. “É um desrespeito, uma falta de empatia, uma falta de humanidade. Eu só quero respeito pela minha família e pela trajetória dela'.

A vítima trabalhava na Secretaria Municipal de Educação e foi morta com dois tiros dentro da própria casa, no Bairro Jardim Novo Eldorado. O relacionamento com o autor durou 13 anos e, segundo apurado, era marcado por histórico de violência doméstica. Vera já havia solicitado medida protetiva. A filha do casal, de 9 anos, presenciou o crime.

Dias depois do enterro, o túmulo foi violado no cemitério do município, dando início a uma nova investigação que agora resultou na prisão dos envolvidos.

Nos últimos cinco anos, Mato Grosso do Sul registrou 17 casos de vilipêndio de cadáver, segundo dados da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública). Apesar de não ser um crime frequente, os registros ao longo dos anos mostram que episódios desse tipo se repetem em diferentes regiões do Estado.

A Central 180 funciona 24 horas, de graça, e a ligação pode ser anônima. Em caso de emergência, procure a polícia pelo 190. Violência contra mulheres, crianças, idosos ou qualquer pessoa não pode ser silenciada.

Se você vive ou testemunha alguma forma de agressão, denuncie. O 180 atende 24 horas e pode orientar e acolher. Em situações de risco imediato, ligue 190. Seu gesto pode salvar uma vida.

Procure ajuda – Em Campo Grande, o GAV (Grupo Amor Vida) presta apoio emocional gratuito a pessoas em crise pelo número 0800 750 5554. Também é possível buscar atendimento no Núcleo de Saúde Mental ou no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), ou pelos telefones 141 e 188 do CVV (Centro de Valorização da Vida). Em situações emergenciais, os números 190 da PM (Polícia Militar) e 193 do Corpo de Bombeiros podem ser acionados.