MS
Câmbio pode definir lucro ou prejuízo da soja em MS, aponta estudo do Cepea
Simulação baseada em Maracaju mostra que dólar mais alto permite cobrir integralmente os custos
ANDERSON VIEGAS / CAMPO GRANDE NEWS

Uma diferença de apenas R$ 0,26 na cotação do dólar pode ser suficiente para fazer uma lavoura de soja deixar de operar abaixo do custo total e voltar a remunerar integralmente a atividade. É o que mostra um estudo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), que utilizou Maracaju como referência para Mato Grosso do Sul em uma simulação sobre o planejamento da safra 2026/2027.
O estudo utiliza Maracaju como referência para Mato Grosso do Sul entre as principais regiões produtoras de soja analisadas pelo Cepea. Na safra 2025/2026, o município foi o segundo maior produtor do Estado, com 1,287 milhão de toneladas colhidas, conforme dados da Aprosoja/MS.
O trabalho, intitulado Com conflitos se arrastando, oferta mundial de gás natural e enxofre segue restrita e preços, em alta, foi elaborado pelos pesquisadores Mauro Osaki e Renato Garcia Ribeiro e pela analista de mercado Ana Maria Piccino, da área de Custos Agrícolas do Cepea. Publicado no último dia 8 de junho, o levantamento analisa os reflexos da alta dos insumos e das oscilações cambiais sobre a rentabilidade da soja.
Para projetar os resultados, os pesquisadores construíram dois cenários. No primeiro, adotaram uma taxa de câmbio de R$ 5,00 por dólar, próxima da média observada em abril. No segundo, utilizaram R$ 5,26, projeção do Boletim Focus, do Banco Central, para 2027. Nos dois casos foram mantidos o mesmo preço da soja na Bolsa de Chicago, o prêmio de exportação e os demais parâmetros considerados no estudo.
Embora os números sejam específicos para Maracaju, escolhida para representar Mato Grosso do Sul entre os principais polos produtores do país, eles ajudam a mostrar o peso que o câmbio pode ter sobre a rentabilidade da cultura.
Câmbio muda o resultado da conta
No cenário de dólar a R$ 5,00, o produtor de Maracaju precisaria colher 46,1 sacas por hectare para cobrir o COE (Custo Operacional Efetivo), que reúne despesas como sementes, fertilizantes, defensivos, combustível e mão de obra.
Para quitar o CT (Custo Total), que inclui também itens como depreciação e remuneração da terra e do capital investido, seriam necessárias 66,1 sacas por hectare.
A produtividade média utilizada pelo Cepea, calculada com base nas últimas cinco safras, é de 64,6 sacas por hectare. Com esse rendimento, o produtor consegue pagar os custos operacionais, mas fica abaixo do volume necessário para cobrir integralmente o custo total da atividade.
Quando o câmbio sobe para R$ 5,26, o cenário se inverte. A produtividade necessária para cobrir o COE cai para 43,5 sacas por hectare e a exigida para o CT recua para 62,4 sacas. Como a média considerada permanece em 64,6 sacas, o produtor passa a superar os dois patamares e consegue remunerar todos os custos considerados na simulação.
Margens apertadas
O levantamento também mostra impacto importante sobre a margem bruta. No cenário de dólar a R$ 5,00, produtores com terra própria teriam redução de 26,6% na margem em relação à safra anterior, o equivalente a R$ 1.168 por hectare. Para quem trabalha em áreas arrendadas, a projeção é de margem negativa de R$ 213,30 por hectare.
Com o dólar a R$ 5,26, a situação melhora. A margem bruta do produtor com terra própria permanece positiva em R$ 1.527,60 por hectare, com redução de apenas 4% em relação à temporada anterior. Nas propriedades arrendadas, a margem volta ao campo positivo, mas em nível bastante apertado, de R$ 146,30 por hectare.
Os próprios números mostram o peso do câmbio sobre o resultado da atividade. Mantidas as demais premissas da simulação, uma valorização de R$ 0,26 na moeda norte-americana faz com que a produtividade média considerada para Maracaju deixe de ser insuficiente para cobrir o custo total e passe a superar esse patamar.
Alerta para o planejamento
Segundo o Cepea, o primeiro cenário preocupa especialmente porque uma eventual quebra de produtividade, sem compensação por preços ou valorização cambial, pode levar o produtor a registrar uma das menores margens desde a safra 2008/2009.
Além do câmbio, o estudo aponta que os conflitos internacionais continuam restringindo a oferta mundial de gás natural e enxofre, matérias-primas importantes para a fabricação de fertilizantes, mantendo pressão sobre os custos de produção.
Na avaliação dos pesquisadores, esse cenário pode prolongar a alta dos insumos agrícolas. O estudo também alerta que a transição energética e o avanço das políticas de descarbonização tendem a aumentar a disputa por matérias-primas utilizadas pela indústria química, elevando os custos dos fertilizantes e pressionando a produção de alimentos no longo prazo.






