Saúde
Tabagismo mata 477 pessoas por dia no Brasil e custa R$ 153 bilhões ao ano ao SUS
O JACARé/BY SANDRA LUZ, DE PORTUGAL

O tabagismo é responsável pela morte de 477 mortes ao dia no Brasil e gera um custo anual de R$ 153 bilhões para o SUS S(Sistema Único de Saúde), de acordo com dados do INCA (Instituto Nacional de Câncer). Do total, R$ 67,2 bilhões correspondem a custos médicos diretos — o equivalente a 7% de todo o gasto com saúde no País — e R$ 86,3 bilhões em custos indiretos decorrentes da perda de produtividade devido a mortes prematuras, incapacidade e cuidado informal. Para cada R$ 1 de lucro da indústria do tabaco, o Brasil gasta R$ 5,10 com o custo total do tratamento e das perdas de produtividade.
Em escala mundial, o tabagismo é responsável por 55 mil mortes por câncer anualmente, além de 30 mil por problemas cardiovasculares e 40 mil por doença pulmonar obstrutiva crônica. Em 2024, o número de fumantes no Brasil aumentou 25% entre os homens e 36% entre as mulheres, o que representa um retrocesso aos patamares de 10 anos atrás, segundo a Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde.
Pesquisadores do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) produziram uma nota técnica que identifica a circulação de vídeos com dados falsos sobre cigarros eletrônicos no YouTube. Os conteúdos, produzidos em canais brasileiros, negam evidências científicas sobre os riscos da nicotina, desacreditam autoridades sanitárias e utilizam formato opinativo para burlar as leis que proíbem a publicidade do tabaco na internet brasileira desde 2000.
Os cinco canais identificados na nota acumularam mais de 6 milhões de visualizações e somam 400 mil pessoas inscritas. Os vídeos ensinam como usar o produto, avaliam modelos, oferecem cupons de desconto e links para adquirir o vape, além de trazer entrevistas com especialistas defensores do cigarro eletrônico. A nota aponta que a plataforma apresenta autorregulação frágil e não menciona, em sua seção de publicidade, a proibição legal de propaganda de tabaco e cigarros eletrônicos no Brasil.
Os cigarros eletrônicos são proibidos no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2009. Eles causam dependência e provocam a doença denominada EVALI, causadora de lesões no pulmão. Pessoas entre 15 e 24 anos somam cerca de 70% dos usuários desses dispositivos eletrônicos para fumar no Brasil. O vape desafia três décadas de conquistas de políticas públicas contra o tabaco por meio do Programa Nacional de Controle do Tabagismo.
O INCA lançou a campanha do Dia Nacional de Combate ao Fumo 2026 com o tema “Atividade Física e Saúde: Treinar não Combina com Fumar”. O alerta principal é que a prática de atividade física não reduz os riscos do tabagismo. De acordo com a psicóloga Vera Borges, especialista no tratamento do tabagismo da Divisão de Controle do Tabagismo e Outros Fatores de Risco do INCA, “todos os ganhos serão perdidos por conta dos prejuízos que esses produtos trazem”.
A nicotina contrai os vasos sanguíneos, diminuindo o fluxo de sangue para os músculos e órgãos; reduz a capacidade do sangue de transportar oxigênio; inflama as vias aéreas; e exige maior esforço físico para atividades que demandariam menos energia de uma pessoa não fumante. “O que as evidências apontam é que, de fato, o tabagismo e o uso da nicotina nas suas diversas formas interferem na performance”, afirmou Fabio Fortunato Brasil de Carvalho, educador físico e chefe substituto da Divisão de Pesquisa Populacional do INCA em nota distribuída à imprensa.
Por outro lado, a atividade física durante a cessação do tabagismo promove a liberação de substâncias envolvidas com sensação de prazer e bem-estar, reduzindo sintomas comuns da abstinência; aumenta a autoestima e confiança necessárias para abandonar o tabagismo. Mesmo curtos períodos de atividades aeróbicas, como caminhada, corrida, dança ou natação, reduzem a vontade de fumar.
A campanha também alerta para a experimentação por meio dos dispositivos eletrônicos para fumar (DEFs) e de outros derivados do tabaco pelo público mais jovem, levado a acreditar que são produtos menos danosos sem prejuízos ao condicionamento físico. A iniciativa tem como objetivo prevenir a iniciação, proteger ambientes livres dos produtos do tabaco e promover a cessação do tabagismo. Roberto Gil, diretor-geral do INCA, destacou que “infelizmente, a gente hoje está se deparando com novas situações ameaçadoras a todas as conquistas obtidas ao longo do tempo”.
A nota técnica da Fiocruz defende uma articulação intersetorial entre Estado e sociedade civil para propor soluções para ampliar a segurança dos brasileiros no YouTube. As recomendações incluem a celebração de um acordo de cooperação com a plataforma para oferecer maior segurança aos cidadãos brasileiros no que se refere à proibição da publicidade do tabaco nos canais brasileiros, e uma parceria entre atores da comunicação pública, influenciadores digitais e o YouTube para promover, gratuitamente, conteúdos informativos sobre o risco dos cigarros eletrônicos.
Sugere-se ainda, com base no Decreto n.º 12.975/2026, que os provedores de aplicações de internet tenham transparência sobre estratégias usadas para avaliação de riscos, moderação, recomendação e monetização sobre temas relativos ao tabaco nas plataformas. As medidas são relevantes no contexto do ECA Digital, pois atuam como medidas preventivas para evitar a iniciação de jovens e adolescentes no uso de dispositivos eletrônicos para fumar.






